quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Sem castigo!





E mais um dia, cumprimento de rotina: Após banho e almoço, deveria pentear o cabelo e aguardar; mas toda ordem do Universo pode ser bulinada quando ela invoca com alguma coisa. Não por birra, mas os questionamentos e perguntinhas são tantas que para calcular 1+1 você resolver contar nos dedos para não ter dúvida. 
A temática do dia foi o cabelo. E desta vez, ela queria “esquentar” o cabelo. Sua irmã mais velha, volta e meia estava com o cabelo alisado. A mãe, tias e avós em reuniões sociais também, e ela não entendia por que ao invés de ter seu cabelo “esquentado”, faziam trancinhas para que pudesse usá-lo solto. E sempre dizia: “Quero que minha avó esquente meu cabelo! Quero mesmo. Se o da minha irmã pode, por que o meu não pode?”
Sua avó alisava cabelos crespos profissionalmente. O que chamava a atenção era o método arcaico utilizado para isso: chapinha à ferro. Sim, você leu isto mesmo, e não se trata de algo ocorrido em décadas anteriores. Pleno 2012, ainda utilizam deste método de tratamento capilar (ou adestramento; como queira chamar). A garotinha cresceu vendo sua vó fazer isto, e chegava a ficar boquiaberta com o efeito da mágica que a vó fazia: a mecha crespa ou enrolada em segundos estavam estiradinhas, como cabelo de índio. E ela, não via a hora de fazer parte do número. Queria crescer mais um pouquinho para ver o efeito daquela mágica bonita no cabelo dela.
Mas bem neste meio dia de intenso calor soteropolitano, enquanto a tia desembaraçava seu cabelo, ela folheava o livro da escola quando se deparou com uma índia. Olhava para a índia, olhava para o espelho. Olhava para a índia, olhava para o espelho. Ate que franziu a sobrancelha; olhou a índia novamente e encarou o espelho, com olhar bem fixo. Aquilo chamou a atenção da tia que perguntou: “Sua cabeça está doendo?” Ela não respondia. E a tia insistiu na comunicação: “Menina, o que foi?” Quando foi surpreendia com a indagação: “Eu não sou brasileira?” A tia responde: “Sim. Claro que é.” E a garotinha apresenta sua lógica: “Então a índia que não é brasileira não é, tia?” A tia: “Claro que é também.” Ela reluta: “Não é não. A gente é muito diferente. Olhe meu cabelo e o dela. Quem é brasileira, eu ou a índia?”
A tia, como quem quer por ponto final: “As duas, menina! Onde já se viu...”
A garotinha calou. Não por consentir, mas dispirocou em “pensares infinitos” ainda mais. E voltou: 
-Ah tiaaaa! O índio não já morava aqui antes de todo mundo, não é?
-Sim.
-Então eles que são brasileiros. E a gente só fica mais brasileiro quando esquenta o cabelo, porque ai fica lisinho que nem a índia do livro. Então a gente esquenta o cabelo para ficar mais brasileira, tia?
Aquelas palavras que saim bailando naquela vozinha inocente ressoava na cabeça da tia como símbalos dum sino gigante. Não pela voz irritá-la, mas pelo fundamento do questionar. Ecoava lá dentro: “Por que eu aliso meu cabelo, meu Deus? Esta criança é um android?” 
A tia, simulando uma firmeza de idéias, conta de maneira breve a história do Brasil:, miscigenação, chegada dos negros, enraizamentos dos colonizadores e outras questões envolvidas. A criança ouvia atentamente, até que quando perguntou: “E quando as negras começaram a esquentar o cabelo? Era inveja das índias?”
A tia pacientemente e com certo pesar, tentou adaptar (converter, talvez) a história a uma versão infantil, e se pôs a narrar que os homens brancos “namoravam” com suas mulheres brancas, mas ainda assim queriam namorar as negras. Logo, as mulheres brancas queriam saber o porquê. O que as negras tinham que chamavam atenção? Como as Sinhás não podiam mudar a cor das negras, nem a anatomia dos seus corpos, mexeriam em sua madeixas, para deixá-las cada vez mais semelhantes e não chamarem atenção dos maridos. Até parece... Mesmo que as negras não querendo, eram forçadas a isto, muitas vezes apanhavam, tinham seus corpos marcados a ferro e outras até morriam de tanto mau trato.
A menina então parou e fez: 
-Tia, que vergonha!
-De que?
-De quem alisa cabelo. Isso era castigo. Castigo por que era diferente, tia? Mas você não me diz que sou diferente, e isso é bom?
A tia ficou sem palavras. Quando nossa pequena socióloga prosseguiu em suas provocações:
- Então você gosta de se castigar, tia? Minha vó trabalha transformando o cabelo das pessoas por que elas não gostam do que são? Então elas saem menos brasileiras... Não quero mais esquentar meu cabelo, não.
-Você está certa. Mas venha pentear seu cabelo porque a condução daqui a apouco chega.
-Mas apertar com esse elástico, encher de creme e trançar também não é castigo?
-Não, meu bem, é cuidado. 
-Então hoje quero ir só com creme. Deixa ele bem solto. Bem brasileira. 
E assim ocorreu. Foi à Escola, a La Brasileira.
Quando mais tarde retornou da Escola, desceu saltitante como sempre da condução. Sua mãe não a tinha visto quando saiu por estar trabalhando, e agora no seu retorno, deparou com o visual Black da negrinha. A mãe achou uma loucura aquela cabeleira volumosa, ao vento. E exclamou: O que é isso menina? Que cabelo é este?
Quando ela respondeu: Cabelo de pretinha, mãe. Cabelo de brasileira. Brasileira sem castigo!
E desse dia em diante nunca mais falou em esquentar o cabelo... Só quer brasileirar, e isso ela sabe fazer muito bem.
Vulpes Persona

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